quarta-feira, 25 de novembro de 2009

meio mar




meio mar



(mário liz)



em meio ao mar ser mais febril e meio. no meio, amar... almar-me além do meio. no estalo da carne sem esteio. no estorvo da dor - eu me contraio. meus comigos de para-raio. tendões à flor da pele em cheio. chuva no céu que caio. eu me dissipo. eu, meu discípulo. e me nego três vezes antes do galo cantar. meio mar me dano, me aceno, me enveneno. queimo, aciono, enceno. faço aziar um copo de água e eno. engulo as chaves da prisão... me condeno. culpado por sentir. por chorar. meio mar, melo. marmelo de sal. os dentes rangem a sós. no céu da boca, desfeitura de nós. voz da garganta. grita que corre. voa que canta. voz abismada. a mão na queimadura do verso. no abscesso da alma. calma, meu filho ... calma. o rio há de chegar pra molhar. e secar esse trauma.

sábado, 21 de novembro de 2009

meio rio




meio rio


mário liz



sou uma centopéia com um cento de olhos

e outro cento de asas.

sento às margens do rio,

nos aposentos do pensamento

com cem olhos a pensar:

meu inferno corpulento

são as ranhuras do vento

quando há alma em mar.

quando há mar em minh’alma

mesmo o rio não se acalma

mas tua voz pequena me diz

em poema:

- calma, menino....

hoje não é dia de

mar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Momento


Momento



(mário liz)




quando o dia cai e a noite brota.


quando o broto salta e a lua vem.


quando o flerte triste n'alma encosta.


quando a poesia toma e tem.


quando o corpo aflito emana.


quando a luz irrompe a pele aquém.


quando Eu de tudo e Eu de todos.


quando Eu de Mim e mais ninguém.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Segmentação

Segmentação


mário liz


cerveja clara. preta. vermelha. café forte. café fraco. com açúcar. com adoçante. com cafeína. descafeinado. leite gordo. leite magro. vida curta. longa vida. leite em pó. pão de trigo. pão-de-batata. pão-de-ló. manteiga. margarina. queijo branco. amarelo. fresco. mofado. requeijão de minas. requeijão do norte. com sorte escolho o que comer ainda hoje. e haja escolha. haicai. poemeto. soneto. poema livre. poema preso. prosa poética. canções de rua. choro. samba. bossa. samba-rock. rock’n’roll. progressivo. punk. metal. blues. jazz. fusion. erudito. tudo à sete notas. ou à uma chave: carro sedan. ret. sem versível. conversível. conversas em comando de voz. celulares. tevêlulares. computadores em todos os lares. pc. notebook. laptop. top models. modelos fotográficas. michês. garotos de programa. prostitutas. acompanhantes. fórmula 1. fórmula 3. fórmulas em bulas. pílulas. comprimidos. xaropes. seringas. drágeas. drogas. fumáveis. cheiráveis. sintéticas. patéticas. adoráveis. heterossexuais. homossexuais. transexuais. pansexuais. xiitas. sunitas. cristãos. budistas. judeus. nazistas. narcisistas. cabisbaixos. endêmicos. anêmicos. hipoglicêmicos. diabéticos. dias crentes. dias céticos. condomínios. favelas. casas. chalés. apartamentos. coberturas. sorvetes. sacolés. ambulantes. braçais. tecnólogos. acadêmicos... no traço cênico que o mundo os faz. os corpos, os tatos se ajuntam. e a vida os explode, sem mais.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

soneto

soneto

(mário liz)

contigo não contenho a sede tanta,
que me desperta o amor na terra incerta.
e até o sol, n'ardência que deserta;
contigo é luz que pulsa e me quebranta.

e o teu olhar é feito a porta aberta,
que quando caio – em versos me levanta.
fechada a tua porta ainda encanta,
pois ao teu lado o que desfaz, liberta.

e mesmo quando estás assim, distante,
de longe a tua voz se funde ao canto
que canto em mim, se a minha dor me cala.

mas quando a noite vem e vem vibrante.
e tu estás comigo, o nosso espanto:
é só parar se o dia invade a sala.




segunda-feira, 26 de outubro de 2009

movimentos Por movimentos


movimentos Por movimentos

(mário liz)

carnívoros querem carne. herbívoros, folhas. a maria-fumaça come vapor. os carros, gasolina. uma lâmpada acesa tem um universo de água. o sono mastiga o cansaço. seres humanos, comida. poetas injetam silêncio (regurgitam vida). bandeiras se agitam com vento. conventos se agitam com cristo. mosteiros não se agitam (vivem de inércia). conversas se fazem de assunto. assuntos, de vida alheia. vidas dependem de oxigênio. gênios, de equações. erupções se alimentam de magma. o diafragma, de emoções. emoções se lambuzam de amores. sílabas, de letras. espelhos, de feições. egos sobrevivem de feitos. defeitos, de falhas. folhas, de seiva. seivas, de água, luz e gás carbônico. o crônico é que tudo precisa de força. porque nada é por si. o barbante zune o peão. você lê, comenta isso aqui. dá impulso à escrita. alforria meus delírios... e lá vou eu. tu. ele. lá vamos nós. voz. eles. entre o alívio bendito do soro. e a aflição de todos os seres.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


não deixe suas idéias dando sopa: faça uma sopa de idéias e chame as pessoas certas pro jantar. a sopa é a entrada, depois, convém o caviar. não chame o mundo cão de mundo de cão. o cão é o melhor amigo do homem. chame o mundo cão de mundo rato. e tenha ratoeiras na sala, na cozinha, no banheiro e no quarto. porque nunca se sabe quando alguém vai roer o seu queijo. e o que se sabe é que a linha entre o desejo e a inveja é pequena. então não diga que tudo vale a pena. somente a pena de morte, se alguém lhe roubar um verso de poema, um slogan de outdoor, uma peça, um personagem. e o que mais se vê são personagens assim: o meu país adora macunaímas. já eu, não. eu prefiro ser um ímã de gente que usa a inteligência pra fazer ouro sem cutucar a mina dos outros. e tá até na bíblia: não cobiçais a mina do próximo. e vejam bem, se eu for o próximo, por favor ... furem a fila.

mário liz

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

american way of life (anedota fundamentalista)

american way of life (anedota fundamentalista)

mário liz


Osama os odeia.
Obama Osama.

sábado, 10 de outubro de 2009

.


por onde passo (desfaço) flores. piso na merda porque não saio da lua. não olho pro chão. é difícil fitar na vida, se ela vem de frente na cara. e é com a cara de quem não olha pra vida, que eu às vezes mato a poesia do meu coração. mato-sem-querer-matar. quase como um menino, que mata formigas. a minha sorte é que certas coisas não morrem. ou morrem tão depressa que beiram o quase-nascer. então, bendita seja a mágoa que morreu desse jeito. ou a poesia que eu matei, mas re-brotou em mim. e isso, de insurgir renascida, faz da ventura o ópio da vida. e não há opinião sem ópio. nem papoulas felizes sem uma carne doente que as deseje. é por isso que eu desejo sal nas feridas. pra depois... um anestésico qualquer me deixar intenso o bastante pra escrever de novo.


mário liz

terça-feira, 29 de setembro de 2009

para depois que me plantarem ...



para depois que me plantarem...

mário liz

quando eu morrer, deixem um recado no meu orkut, pra todo mundo saber que eu fui um cara legal (ou mais legal do que eu realmente fui). escrevam que *eu fui poeta, sonhei e amei na vida. citem drummond, leminsk, maiakovski, renato russo, byron, goethe, vinícius, chico... e caso eu realmente vá para o inferno, citem raul, paulo coelho e teatro mágico (porque junto comigo irão as boas intenções de vocês).
criem comunidades pra mim, me transformem em um morto pop. compilem meus poemas, mandem minhas frases em recados virtuais, cantem minhas músicas, façam músicas pra mim...
quando completar um ano, cantem parabéns. façam um bolo, assoprem as velas (este texto vale como procuração, assoprem-nas por mim). escrevam minha biografia e escrevam também a minha biografia não-autorizada (ambas já têm o meu aval).
façam um vinho tinto com meu nome, um vinho encorpado... preferencialmente cabernet e façam um menu com meu nome, desde que não seja vegetariano (porque de mato a minha boca já vai estar cheia).
inventem mitos, lendas urbanas. digam que fui um alcoólatra e que me droguei diariamente por 15 anos da minha vida. escrevam em tablóides que fui um boêmio incorrigível, amante dos puteiros, neto da noite, filho da madrugada.
falem dos meus amores, falem de sexo, digam que fui um insaciável e que mulher alguma jamais reclamou de mim. falem do meu membro, digam que era acima da média, deliciosamente fora dos parâmetros... uma peça de inigualável prazer.
encontrem meu sêmen num banco de “dados” e disseminem meu legado nos 4 cantos do mundo. mas se a minha porra estiver cara, me dêem ao menos filhos ideológicos que pensem como eu, que falem como eu e que se portem como eu.
sejam o meu espelho, a minha fragrância e a minha inconstância. sejam e estejam por mim (me imitem, me declamem, me derramem...)

- é, amigo ... dói demais a certeza de saber que um dia seremos esquecidos.


* Incidental, Álvares de Azevedo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009




Viviane Pires foi a personificação do Rosa ... qualquer amigo ou conhecido próximo também o diria sem dificuldade alguma. Ela se foi na última sexta (25/09/2009), prematuramente, e deixou um legado de grandes amigos e uma alegria massiva e contagiante. O poema é triste - e não haveria como não ser. Por mais que Ela (a Rosa, a Vivi, a Paquitona) tenha sido alegre ... meu coração não é nobre o bastante para descrevê-la. Então descrevo aqui o meu sentimento (que é de uma tristeza profunda).





Quem sabe alguém a descreva ... com a poesia e o exagero-bom que ela merece. Fica aqui o desafio e o meu poema ...



"uma tarde tão bela, sol desgarrado, céu sem nuvem.
mas Ela se foi, Noiva, mal tinha passado pelo Capítulo Um.
aí a boca pergunta à alma. – de que valeu tanto sol? –
se a tristeza veio sem morfina e sem calma...
em sinfonia bemol.
e agora, no rol de cores, haverá uma
(ou mais uma em meio a tantas) tingidas pelo certo da vida.
é o Rosa, que, nessa tarde tão linda,
nunca esteve tão cinza."




Mário Liz








quarta-feira, 26 de agosto de 2009

menino-da-poesia-sem-dente


menino-da-poesia-sem-dente

mário liz

menino-da-poesia-sem-dente, é tempo de morder. toma um canino emprestado. devora esta carne. come com impulso e sem impasse. come como se não soubesses onde o corpo começa. onde a alma termina. olha os campos minados. te joga. roga um risco de sorte a deus. e se a vida explodir, deixa a carne queimar. deixa a pele virar cinza. a cinza virar chão. o chão virar carvão. e o carvão curvar ao fogo. deixa o fogo brilhar. consumir com seu mar de chamas. consumar o que chamas de desespero. a dança da luz. da dor. andança destes medos. deixa a brandura de lado. grava teus versos com sangue. com sede. com fome. com 5 sentidos. contato. teus filhos nascidos precisam ver. há algo em ti inteiro a pulsar. há um todo em ressaca de mar. deixa o sal corroer. deixa o vento carpir. deixa, carinhosamente, a vida arrombar tua porta.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

castelos

castelos

(mário liz)

bendita a surdez seletiva. a cegueira seletiva. a amnésia seletiva. ainda que todas sejam engarrafadas com seus 12, 18, 24 anos. bendito seja o ópio em forma de som. em forma de reza. o ópio em poesia. bendita seja a fuga. o escape. a evasão. o país dos baralhos. a terra do nunca. o sítio do pica-pau amarelo. o rio de janeiro lindo. a américa de oportunidades. bendita seja nossa senhora aparecida que nunca apareceu pra mim. as convenções acerca das mazelas do mundo... regadas à cabernet. caviar. black tie. abraços. aperto de mão. tapinha nas costas. G4. G8. Gzus! quanto G. bendito seja o ponto G que elas têm, se é que elas têm. a lenda do príncipe encantado. o homem gentil. sutil. que não liga pra sexo. que só quer carinho. bendita seja a fêmea que não ama dinheiro. que não gosta do fútil. do fácil. do champagne. da lua-de-mel. terra-de-mel. marte-de-mel. e todo sistema solar. haja abelha pra tanto mel. haja pedra, à quem nunca jogou a primeira pedra. haja pedro pra tanto papa. bento. joão paulo. leão. cordeiros com dentes de lobo. desordeiros dos 10 mandamentos. não cobiçais a mulher do vizinho. mude pra outro quarteirão e a cobice. não matarás. apenas dê a corda. o ticket-suicídio. a ressocialização no presídio. a carta ao leitor. prezado leitor. quem dera a vida fosse um cinema. e entre tramas e traumas a dor sucumbisse ao relaxo. e ao gozo. caro leitor: vida não é cinema. por-ímãs não são poemas. e acredite: você está no circo... o Bozo chegou!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

(...)




(...)



se tudo leva a crer que me perdi em você, que tantos nomes me beiram, mas ouço apenas o seu nome, se tudo leva a crer que nada além de você me consome, nada além de você me alimenta e nada além de você oxigena aquilo que chamo de poesia, se tudo leva a crer que mais dia, menos dia, a folia do seu coração vai trilhar no meu peito pra sempre, que você será minha do ventre à alma, do olhar aos gestos, se tudo leva a crer que de resto não terei mais nada, tudo levará a crer que serei maior que tudo. porque ter você é estar além de qualquer coisa que respira. com você a minha alma vai do grito à brandura sem que o marasmo me perceba. e minha pele vai do casco à seda sem brindar-me à desventura. se tudo leva a crer que com você me refiz em cores. eu posso me gritar poeta, humana criatura. posso amar em passo de mar rompendo a estrutura do coração. e tudo leva a crer que é você, sim é você. e nada leva a crer que não.


(Mário Liz)

sábado, 1 de agosto de 2009

ascensão

ascensão


(Mário Liz)

seus dentes na pele.
sem precedentes.
sem pressuposto.
seu rosto no meu retrato.
seu beijo aflito no meu olfato.
seus olhos no teto.
a alma no tato.
a mão no seu esqueleto.
você treme.
eu arrebato.
meio que voa o corpo,
a cena, o ato.
meio que move a letra.
sem freio, sem recato.
meio que com afeto.
meio que sem formato.
meio no meio da cama.
meio no meio do mato.

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Mário Liz
Pouso Alegre, Minas Gerais -, Brazil
olhos de mira e pedras de muro e mudas de medos e espasmos de midas e amores sem modos e mundos inteiros no meu coração ...
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