Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

à Flor D'água

à Flor D’água

(Mário Liz)

Tem dias que o vento são cerdas-meninas
que dançam pela pele.
E pulam na minha carne que trepida
e se põe a sangrar.
A minha carne se põe como o sol.
O meu sangue poente.
Minha carne quente,
a se dar no que a transpõe.
TransPoemas não caem de mansinho.
Desabam.
Desovam cadáveres no mar e no rio que sou.
E minhas águas ficam como que cheias
de vidas-mortas.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

PoeMichael


preto.
branco.
metamorfose.
metamorfina.


(mário liz)

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

27



27




meu vigésimo-sétimo carnaval é talvez mais carnaval que os outros. ganhei um amor, perdi o cachorro. é como a tristeza na quarta-feira-cinzeira: a cura que eu não queria à minha overdose de riso. esse é o frio do carbono: no fim, tudo é cinza. no fim tudo é fim. dá um certo medo saber que o amanhe-ser pode não ser. desbotar assusta. custa uma aquarela. custa a coisa singela de estar. mas eu estou bem, não é preciso alarme. a sirene do tempo brilha vermelha e me dou bem com ela. hoje fiz 27 anos, mas com corpinho de 26. ano que vem serão 28... e se tudo correr bem:


amanhe-serei

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Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

(...)

(...)

Isso de dizer: “te amo tanto que até dói”, existe e não existe. Existe porque é lugar-comum: se desprende da boca, todo mundo diz. Não existe, porque amar não dói. O que dói é querer em mão única; e o que não é par não é amor. Amor é par, tem 4 letras. Quatro letras tem 12 letras e também é par. Então amar tem aquela coisa de moleque: eu tenho porque recebo. Amar é bumerangue...

Parece sangue, mas é sangue só em cor. Parece cor, mas brilha sem o sol. Parece sol... e com ele se confunde. Talvez seja o Sol que esteja Dele mais perto. Ou quem sabe seja Ele que quando se faz a voar... vai pra perto do sol. Eu fico aqui com meu rol hipóteses e só consigo decifrar que... o amor é dois. Dois pra lá, dois pra cá, que nem valsa...

(Mário Liz)


Domingo, 31 de Maio de 2009

poema de perto


poema de perto

(mário liz)


loucura na cara é beleza que cura a tristeza mais pura. vergonha na cara só mesmo a vergonha de quem vive e não sonha. a gente sonha loucuras e o caro da vida é um grande barato. o que preciso está no tato, paladar, visão, audição e olfato. de fato se sonho, tudo vem em dobro: ouço cochichos. salgo o salobro. sinto o cheiro, corro, vejo e toco seu corpo. quero o nicho pra perto de mim. ao redor, há milhares do melhor. há mulheres mil em uma que amo. há o bem que tinha. bem-te-vi. bem que terei. eu sei, eu sei... o longe é belo. mas o longe é longe e o que não está perto (soa como deserto). eu quero a loucura bem perto dos olhos. face a face o charme ... de loucurar-me
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Camaleonina


Camaleonina

(Mário Liz)

hoje não tem nada, amor: não tem aula, não tem gente, não tem nada mesmo. hoje é um dia desses “de nada”. por isso antes é preciso que se diga obrigado (seja lá a quem for). eu costumo agradecer à minha tristeza, pois ela não é apenas triste – ela existe e tem filhotinhos. a felicidade que sinto é talvez a filha do meio da minha tristeza. a filha desgarrada que pouco fica em casa... que sempre sai pra ver as caras do mundo. eu até já mandei um desses pombos mensageiros levar um bilhete gritado, com os dizeres de: “volta pra casa, menina!.” tolice... quem tem asas, não tem lar. quem espera a felicidade, olha pro céu mas vê o mar (a ver navios). e é lá, naquele horizonte onde o veleiro se perde, que a felicidade se encontra. um horizonte laranja e essa menina... camaleonina...

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Hoje, aqui ...


Hoje, aqui...

Para Sayuri

(Mário Liz)

você está aqui mesmo quando não está aqui.
e quando está aqui, está aqui duas vezes:
às vezes no meu coração, outras vezes também.
às vezes nem fico mais em mim, se fico assim sem você.
às vezes vejo seu olhar a ilhar minha vida.
às vezes vejo seus olhos em tudo que a alma vê.
é tudo sempre mais dia se você não me adia a visita.
se você vem, a palavra tropica, mas tudo é poema.
“eu amo você”,
vem quase que num fonema: uma palavra só,
que não me deixa só.
solidão é coisa de ontem, e hoje,
Sou Hoje.
hoje eu sou com você.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O Cara que vê o Tempo



O Cara que vê o Tempo...


(Mário Liz)


O cara que faz poesia é um cara legal. Ele é meio esquisito, barba por fazer, mas é um cara legal. Tem vezes que ele ri demais. Parece anormal. Anormático. O cara sai dos trilhos, vive sem normas. Vive como se deve viver, sem querer se valer do que não é do coração. E é razoável que ele viva assim, sem medo de se perder. Aquele olhar... acho que sempre foi meio perdido. Pendurado num tempo que só ele vê. Um tempo que ele vê diferente. Sei lá como ele vê o tempo... mas ele o vê. Eu não. Já tentei ver o tempo e fiquei com os olhos cheios de areia. Isso de querer ver o tempo me faz chorar. Só mesmo o cara esquisito que faz poesia vê o tempo e não chora. Acho que a hora passa por dentro dele e se perde naquele coração, que é tão grande. E tudo que está no coração é fácil de se ver. Eu mesmo, que não sou lá dos mais sensíveis, com um pouco de vinho e outro pouco de emoção, logo vejo em cara e encaro o meu coração. E trafego no silêncio do peito, que me diz tantas coisas. E eu me descubro quando fuço ali. Do mesmo jeito que o cara que faz poesia se descobre quando vê o tempo dentro de si. Eu fico aqui a me dizer com meus botões de madeira e penso que deve ser um tanto dolorido ter o tempo no peito. O tempo todo. Essa coisa infinita e onipresente. Eu bem que tento imaginar, mas é muito pra mim. Quando eu for poeta de verdade, não irei buscar o tempo. Ver o tempo deve ser quase como ver a morte. E eu não vejo a morte, apenas a espio. Afinal de contas, quando a gente dorme, a gente sempre morre um pouquinho...

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Cisco (a) Cisco

Cisco (a) Cisco



Mário Liz



Já reguei a planta dos pés, intenso de amor, sonhando raízes. Errei o sentido da dor, fabriquei cicatrizes. Já me vesti do impulso do corpo, do gosto do cuspe, da pele pela pele e nada mais. Já vesti de ódio a minha paz e dei rancor ao meu sossego. Já fui cego, surdo e mudo. Já tive vinte sentidos: um pra cada dedo. Já tive dados jogados ao céu, dados escritos no papel e dados de amendoim no talo da boca. Já tive a pele roxa, a pele vermelha e um riso amarelo a um passo da forca. Já tive poemas amontoados em gavetas. Amigos esquecidos em gavetas. E por tantas vezes morri em gavetas como forma de abrigo. Já tive um umbigo do tamanho do centro da Terra. E já tive terra no centro do umbigo. Comi poeira, vi o bonde passar. Enchi os olhos d’água. Engoli a mágoa e dei vida aos dentes quando a Banda se fez a tocar. Já tive tanto medo que o verbo mal me saía. Já tive tantos verbos que até me fartei de tanta alegria. Corri, voei, dancei, chorei, escrevi, esqueci, medi, montei, segui, agi, parei. Tudo verbo viver, tudo verbo sonhar: ao vento, planar e sumir. E no mesmo movimento: sentir e voltar. Já tive de frente com a morte. E vi um filme a triscar-me nos olhos. Às vezes tudo que se vê, são apenas ilhas. E de nada valeu sonhar, se o sonho não cortou o oceano. Já tive dias humanos, e por hora, ainda os tenho. Só não sei até quando a calma vai me abraçar. Porque se tudo é alma, o vento também é alma. E se de cisco a cisco Ele move montanhas. De cisco a cisco onde é que o meu Obelisco... vai se encontrar?

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Não, eu não me chamo Hildebrando...



Não, eu não me chamo Hildebrando...


(Mário Liz)


Sou poeta. Não há nada brando. Não me chamo Hildebrando. Nem me pego vibrando por coisa que não me faça sonhar. Eu bem poderia me chamar Marcelo: Meio Mar, Meio Céu. Mas nasci arredio: Meio Mar, Meio Rio. Duas águas, duas febres, duas forças. Dois encontros no epicentro do peito. Um sujeito esquisito: com falhas, confetes, com fogos, conflitos. A minha arma é o infinito que não se pode olhar. O infinito são meus olhos: eu me vejo em cada caco da vida. Eu sou um quebra-cabeças. Peça por peça me conheça. Peça por peça me pessa carinho. O Bem que me apossa. Minh'alma coça pra dizer o que o poema escreve. Tento ser leve, mas não me chamo Hildebrando. Sou Poeta...

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Anedota

Anedota


(Mário Liz)

A Verdade cospe vidros. Esfola a alma, retalha. Um verbo de navalha lambido nos cortes. Verbos de morte no meu teatro. Retrato que me restou. Finda fantasia com cheiro de festa. Num sopro se foi...

Agora sou Eu, a Verdade, Ela em mim, amarga em feto, meio e fim. Ela e Eu, Eu por ninguém, além do que o sonho ousa suportar. Vou me portar miúdo, meio gago, meio mudo, meio medo, meio mundos e dedos na face.

O paralelo era doce. Elos que criei, pára-choques. Não fosse a Verdade, eu seria Quixote. Um filhote de pássaro permeando sonhos no céu.

Mas Ela amputa asas. Enxuta, seca a fonte. No escuro, largueia entradas: uma caixa de fósforos, um novo horizonte. E tudo se molda conforme a roda. A dor se põe a girar.

E no Giro a Poesia me vem em confetes e tiras: não sabe se traga a verdade. Ou me abranda em velhas-novas-mentiras.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Avesso & Verso


Avesso & Verso

(Mário Liz)

Não é corte, é alma rompendo pele. Dói, não é apenas peito aberto. É sangue, é grito, é nervura. Não é apenas livro aberto, é carne ao avesso, o salto da veia, os dentes, as unhas. É tudo vivo, vermelho e quente... não tem cheiro de valsa morta. Também não é belo e nem é leve: pesa, arde e corta. Então é uma massa viva de dor. Ou mais que isso: é aço quente em carne crua... arde como paixão. Tem cor de entardecer, mas não tem brisa. Quando vem, esfola a pele lisa. Risca em lâmina rente. Alenta com vinagre, o grandioso milagre da cura pelo pesar. E como pesa. A carne ao avesso carrega pedras em passos pisados num piso de brasa. É oceano... somente oceano... não há margem rasa. Nem rosas brancas. O que não é prazer, está pra ser dor. É forte, aguerrido e profundo. E está para mim... como o sol está para mundo.

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Rio de Cores


Rio de Cores

(Mário Liz)

Um sonho, uma cidade.
Um verso, uma flor nas esquinas.
A poesia me dissemina.
É meu levante...
Elevador ao céu... me pertence!
Um sorriso circense, um balé.
Qual é o jeito de estar a fio e não sangrar a carne?
Eu digo:
Arme um rio de cores no coração...

Terça-feira, 24 de Março de 2009

, ... ... ...



Ver o sol nascer. A chuva cair. O céu estrelar. A lua surgir (refletida no mar). Sentir o chão nos pés. O vento no rosto. O gosto salgado, doce, azedo. Cedo ou tarde, não importa. Andar em zigue-zague com Deus em linhas tortas. Andar aos assovios. Assoprar a sopa quente. Cantar intensamente qualquer canção. Por menor que seja. Por menor que surja no coração. Ter um cãozinho e uma árvore e um canteiro e um livro de se tocar ou tatear na memória. Contar histórias, estórias, estados de espírito. Espalhar espuma no banho, ter medo do escuro. Ter a cura em um sorriso. Arrancar o siso. Ser liso de vez em quando. Chorar por amor. Derramar o leite. Errar, pular, embriagar, eclodir. Ser por hora o palco. E também o público. Tomar um susto, roubar um beijo, sentir o corpo estremecer. Se entregar sem culpa, sem cismas e não compreender a dízima dos sentimentos. Viver com gula. Agir com sede. Ter holofotes e trajes de gala. Arrumar as malas, visitar um velho amigo. Estar liberto, luzindo a libido de cada dia. Começar hoje a poesia de amanhã. Sonhar ontem o traço de hoje. E que haja tudo em seu tempo: a luz e o sofrimento. Porque tudo há de emergir na carne: cada espinho com sua cerda. Cada flor com seu momento.

Mário Liz

Terça-feira, 10 de Março de 2009

Por Inteiro...


Por Inteiro

(Mário Liz)

Mesmo calado o vento sopra. Mesmo morto o mar se move. Há coisas que se firmam. Acasos que formam. E há o para sempre nas pequenas coisas. Mesmo escondido o sol brilha. Mesmo perto há horizontes.

Há montes e montanhas de pensamentos. E mesmo em sono a vida não pára. E mesmo insone o ponteiro não cansa. A dança do mundo infinita os pares. Há lugares na platéia. E um imenso palco sem sombra. E mesmo aos escombros o palco se veste. E as luzes não param, não pensam, só iluminam. E ainda sem pernas as bailarinas fagulham. Elas movem as mãos, sapatilhas em luvas. E mesmo a chuva não impõe o desfecho.

Há o baile das gotas da chuva. E se chove, não há sede no baile. E mesmo ensopados os corpos se aquecem.

E mesmo aos latejos, a tristeza se perde. Há no mundo a prece que a vida chamou esperança. E se não há a entrâncias no dia, ela vem aos encantos da noite. E mesmo ao açoite dos ares, ela toca o veleiro. E mesmo aos pedaços, perdido e pequeno, o Amor está aqui.

E eu também estou, e estou por inteiro.

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Pouso Alegre, Minas Gerais -, Brazil
olhos de mira e pedras de muro e mudas de medos e espasmos de midas e amores sem modos e mundos inteiros no meu coração ...
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